Equipe LABMUNDO, NEAAPE e OPSA
Na Argentina, a disputa eleitoral consolidada em torno das candidaturas de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad foi o principal assunto das últimas duas semanas. A permanência de Bolsonaro como líder das pesquisas eleitorais e o forte crescimento de Haddad, aproximando-se de Bolsonaro, recebeu destaque. Outro ponto abordado foram as dificuldades enfrentadas por Bolsonaro, como o movimento das mulheres contra sua candidatura, apesar do grande apoio recebido por evangélicos. Por fim, houve repercussão da primeira entrevista concedida por Bolsonaro no Brasil após ter sofrido o atentado no início de setembro.1
Na Bolívia, o jornal El Deber noticiou a saudação de Evo Morales, presidente do país, à candidatura de Haddad, a quem o jornal denominou “candidato de última hora”2. No dia 16 de setembro, Bolsonaro foi chamado de “Donald Trump sul-americano”, ultradireitista saudosista da ditadura militar, e “defensor de armas”3. Alguns dias antes, constou no jornal uma notícia sobre uma nova cirurgia à qual havia sido submetido4. No dia 17, veiculou uma declaração de Celso Amorim, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa dos governos PT, em que afirma que a democracia brasileira corre perigo, que se Bolsonaro assumisse a administração brasileira teríamos um governo autoritário e violento e que Lula hoje não representa somente uma pessoa, mas um projeto5. No dia seguinte, o jornal noticiou que o Brasil se polarizou entre Haddad e Bolsonaro6 e, no dia 22, afirmou que Haddad e Ciro disputam os votos da esquerda “palmo a palmo”, além de ter chamado Ciro de “caudilho do Ceará” e de ter publicado uma breve biografia da sua vida pública7. Outras temáticas também estiveram presentes, como o crescimento da oposição de mulheres contra Bolsonaro e o movimento #EleNão, em uma reportagem em que as principais razões das manifestações femininas foram explicadas8. Por fim, o jornal veiculou que existe hoje no Brasil um debate sobre o nazismo ser de direita ou de esquerda e a recente publicação de um vídeo da embaixada alemã explicando as origens e o espectro político do nazismo.
No dia 20 de setembro, a mídia do Chile destacou a iniciativa do Facebook de criar uma equipe para monitorar a possibilidade de interferência em eleições no Brasil. O diretor de eleições e compromisso cívico do Facebook, Samidh Chakrabarti, explicou que “apagou ou bloqueou” 1,3 bilhão de contas falsas no Facebook de outubro de 2017 a março de 2018. O número significaria mais da metade do total de usuários da rede. “A inteligência artificial nos permite bloquear milhões de contas todos os dias”, declarou. No dia 26 de setembro de 2018, também foi destacado o crescimento do apoio da comunidade evangélica a Bolsonaro. A reportagem apontou que o candidato do PSL atrai os votos principalmente devido à rejeição do casamento homossexual e do aborto.9
Na Colômbia, o jornal de maior circulação, El Tiempo, publicou duas notícias sobre Bolsonaro: uma sobre a melhora no seu estado de saúde, inclusive compartilhando um vídeo gravado pelo candidato no hospital e divulgado no seu Twitter, e outra sobre suas propostas para a economia, destacando a redução de impostos, de regulações e de burocracia. Também repercutiu os resultados de uma pesquisa do DataFolha que indicou incerteza sobre os rumos da corrida presidencial diante de uma subida na rejeição de Bolsonaro e na intenção de votos de Haddad. O jornal também publicou uma coluna escrita pelo cientista político Luiz Felipe D’Ávila, ligado ao PSDB, que afirma que Bolsonaro e Lula são duas lideranças populistas que dominam a eleição e manipulam as emoções do público, ao passo que Alckmin é descrito como um reformista modernizante.10
A mídia do Equador seguiu cobrindo o estado de saúde de Bolsonaro e a sua consequente melhora, mas salientou que o quadro clínico ainda o deixará fora da campanha no primeiro turno11. A imprensa também repercutiu a entrevista dada por Bolsonaro, ainda convalescente, destacando o apoio que ele deu à pena de morte12. Também repercutiu uma pesquisa do Datafolha, que apontou um crescimento vertiginoso de Haddad, consolidando sua provável posição no segundo turno13. Os jornais também noticiaram a situação política dos ex-presidentes Lula e Dilma. Quanto a Lula, a notícia fez menção ao pedido de vista feito pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, na apelação feita pela defesa do ex-presidente no processo pelo qual foi condenado14. Sobre Dilma, foi noticiada a autorização de sua candidatura ao Senado Federal, pelo estado de Minas Gerais. Após uma série de pedidos de impugnação, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) decidiu, por quatro votos a três, garantir o direito da ex-mandatária ao pleito15.
O principal periódico da Espanha, o El País, segue dando grande atenção às “eleições presidenciais mais turbulentas” do Brasil16. Nesse sentido, o jornal lançou um editorial no dia 25 sobre as eleições e o voto brasileiro, em que afirma que o populismo instalou um discurso político destrutivo no país, concretizado na polarização principal entre PT e Bolsonaro17. O tema do populismo e da polarização política, aliás, apareceu mais de uma vez no periódico nas duas últimas semanas18. O jornal pontuou o silêncio dos eleitores jovens e a falta de representatividade que estes percebem nos líderes políticos19; o aumento do fanatismo religioso em decorrência da facada em Bolsonaro20; e as medidas que o escritório central do Facebook tem tomado para evitar interferências nas eleições brasileiras21. Trouxe também uma entrevista de Celso Amorim sobre a corrida presidencial22. Por fim, duas matérias ressaltaram os desafios e o crescimento da candidatura23 de Haddad, “herdeiro acidental de Lula”24.
Tiveram destaque nos jornais do México e do Peru os seguintes pontos: i) o processo de recuperação médica do candidato Jair Bolsonaro; ii) o respaldo de Bolsonaro à pena de morte e suas promessas de privatização de boa parte das empresas estatais brasileiras; iii) a manifestação de artistas brasileiros contra a candidatura de Bolsonaro; iv) a promessa da Haddad de não conceder indulto ao ex-presidente Lula até que a justiça brasileira reconheça sua inocência; v) os desafios de Haddad para substituir a carisma e liderança de Lula; e vi) a evolução das pesquisas de intenção de voto, que mostram a ascensão do candidato petista. Em coluna no jornal El Universal, o professor mexicano Alberto Aziz Nassif (CIESAS) afirmou que o fenômeno da anti-política chegou ao Brasil e que o país se encontra em uma encruzilhada entre, por um lado, seguir com o corte de direitos e recursos para as maiorias populares, e, por outro lado, regressas a tutela dos direitos humanos e à igualdade.25
O jornal La Nación, do Paraguai, informou sobre a confirmação da candidatura de Haddad à presidência26. Também destacou que os últimos resultados das pesquisas favorecem Haddad, particularmente pelo Ibope, segundo o qual no segundo turno Haddad venceria Bolsonaro com 43% dos votos contra 37%. Por fim, reportou um manifesto contra Bolsonaro feito por intelectuais, artistas, esportistas e empresários devido à ameaça que ele representaria à democracia brasileira27.
Em Portugal, teve grande repercussão no jornal Diário de Notícias a afirmação de Bolsonaro de que ele duvida da transparência do sistema eleitoral brasileiro. O candidato também lamentou que o Supremo Tribunal Federal tenha derrubado a possibilidade de que as urnas fossem auditadas através do voto impresso 28. Igualmente, reclamou do crescimento Haddad nas pesquisas eleitorais por não representar o que ele sentia nas ruas. Afirmou que o povo estaria do lado de sua candidatura e que não seria possível aceitar uma fraude como resultado29.
No Uruguai, o grande destaque foi a polarização da disputa eleitoral entre Bolsonaro e Haddad. As principais notícias referem-se ao crescimento de Haddad nas pesquisas e à manutenção de Bolsonaro na liderança, que conta com forte apoio dos evangélicos. Outra notícia destacou a cautela do mercado financeiro diante do quadro eleitoral, já que há receio tanto com o radicalismo de Bolsonaro quanto com a falta de experiência de Haddad.30
Na Venezuela, em 18 de setembro, o jornal El Nacional noticiou a declaração de Bolsonaro acerca da possibilidade de fraude eleitoral no pleito presidencial caso houvesse vitória de Haddad31. No dia 25, o jornal também publicou uma coluna assinada pelo jornalista Carlos Alberto Montamer e intitulada “América Latina y el nuevo ciclo populista”. O texto faz referência ao contexto regional, levantando a possibilidade de retorno do peronismo ao poder na Argentina, assim como da vitória de candidatos extremistas no Brasil, que lideram as pesquisas. Segundo o autor, Haddad é um professor universitário “muy radical” que poderia iniciar um governo populista de esquerda, enquanto Bolsonaro, saudoso da ditadura militar, traria ao país um populismo de direita. O texto refere-se também a outros líderes criticados por autoritarismo que se mantêm no poder na América Latina e afirma que López Obrador, o novo presidente mexicano, venceu as eleições legitimamente, mas que não se espera dele um governo prudente32.
Não foram encontradas menções à eleição em África do Sul, China, Índia e Rússia.
31EL NACIONAL. Bolsonaro advierte un fraude electoral en Brasil. Publicado em 18/09/2018. Acesso em 26/09/2018. Disponível em: http://www.el-nacional.com/noticias/mundo/bolsonaro-advierte-fraude-electoral-brasil_252180.
32EL NACIONAL. América Latina y el nuevo ciclo populista. Publicado em 25/09/2018. Acesso em 26/09/2018. Disponível em http://www.el-nacional.com/noticias/columnista/america-latina-nuevo-ciclo-populista_253005.